Archive for maio \31\UTC 2007

O que é bonito é para se ler e reler

maio 31, 2007

Teenage Wildlife - Cecily Brown
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luis de Camões

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Marx: frases e idéias

maio 31, 2007

Karl Marx (from the Cuban Icon Series) - Lázaro Saavedra
“O homem feliz é aquele que faz os outros felizes” aos 17 anos;
“Obstáculos e dificuldades impõem ao homem um destino nem sempre desejado” aos 17 anos;

“A liberdade número um para a imprensa consiste em não ser ela uma indústria.”;
“A teoria também se transforma em uma força material quando se apodera das massas.”;

“As religiões, em geral, são um protesto contra a vida insatisfatória que é dada aos homens.”;

“O desenvolvimento do trabalho criador aparece, assim, aos olhos de Marx, como uma condição necessária para que o homem seja cada vez mais livre, mais humano, mais dono de si próprio.” – Leandro Konder;

“A classe que exerce o poder material é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante.”;

“Em sua ascensão, o proletariado prepara a instauração de uma nova sociedade, na qual a propriedade privada e a divisão social do trabalho tendem a se extinguir.” – Marx por Leandro Konder;

“O comunismo não retira a ninguém o poder de apropriar-se de sua parte da produção social; suprime apenas o poder de, por meio dessa apropriação, explorar o trabalho alheio.”.

Fonte: Marx: Vida & Obra (KONDER, Leandro)
Veja também: Resenha do Livro: Marx: Vida & Obra

Carta aberta ao meu amor – primeira versão

maio 29, 2007

Lovers - Fiorella Furzi
Saiba meu amor que sempre a terei com uma boa lembrança por mais que tenhamos terminado de forma brusca e estúpida. Que guardarei nossos momentos mais lindos em minha memória. Que meu coração sempre palpitará diante de sua presença e que minhas pernas sentiram a emoção de forma incontrolável e trêmula.

Lembre que sempre fiz de tudo para te trazer uma imensa alegria e que meu maior presente foi olhar para você e vislumbrar seu sorriso. Que ao olhar para seus olhos transmiti a mais imensa ternura que senti por você. Sempre a tratei como um bibelô e mulher, como a pessoa mais importante do mundo. Que meus pensamentos deslizavam por todo o dia – com pequenas interrupções – ao seu encontro. Perpetuamente és razão do meu viver, pois em tu estava a maior parte das minhas alegrias, a de fazer alguém feliz.

Que também, mesmo diante dos piores momentos de nossa relação – infelizmente impossíveis de esquecer – suas gargalhadas e seus prazeres demonstrados em estar comigo estarão sempre no meu íntimo muito maiores do que qualquer coisa. Saiba que se existe um amor verdadeiro e que ele possa ser traduzido eu o demonstrei todo a você. Este sentimento foi dado em cada instante de carinho, de desejo e das mais infinitas carícias. É claro, não sou perfeito e tive meus momentos de ser humano e de desequilíbrio, mas peço que os releve, pois o que estava dentro de mim sempre foi o meu amor por você. E que a maior dessas demonstrações foram em estar contigo e não com outras mulheres em busca de prazer ou de sexo fácil. E nisso pensei sempre como mulher, o meu desejo esteve sempre ligado ao carinho e ternura que senti por ti.

Lógico que um pouco de perversão passou pela minha cabeça e como ser imperfeito olhei para muitas mulheres com maldade sexual, animal e de macho. Mas, que também nada me moveu mais forte do que estar junto a ti. Óbvio é que desejei mulheres, mas nunca com a intensidade dedicada a você. Minha doação a você foi total,
às vezes pronunciada como uma caixa de bombom, um presente ou flores fora de hora ou simplesmente com palavras queridas e frágeis vindas na minha boca. Palavras vindas juntas com atos de extrema entrega, sensíveis e eternas.

Perceba que cada momento em que me viu sorrindo todo o meu corpo o acompanhou. E com a irradiação destes momentos, sou capaz de jurar que poderia se iluminar até a mais longínqua galáxia tal a energia expressa nesses instantes.

Lembre-se que sempre a amarei em meus mais recônditos sentimentos e por mais que tenhas de alguma forma me magoado terei somente aquilo de bom que tive contigo. Tudo impresso em meu ser.

Contos Contíguos – capítulo III – Guilherme

maio 29, 2007

Le rêve du peintre (The Dream of the Painter) - Marc Chagall
Guilherme era alto, moreno, forte. Seus pais sempre o forçaram a ser médico, diante da insistência em não seguir a carreira, abriram mão até em favor da advocacia e da engenharia. Mas, não houve jeito Gui queria ser administrador.

O pai achava que seguir administração era para ricos ou para quem nada queria fazer ou ainda por quem não sabia por onde seguir. Farmacêutico frustrado, pois tentou a medicina. Mas, além do valor intelectual não ajudar muito, a carreira exigiria um investimento que dispunha já que vinha de família pobre. Não desejava o mesmo para os netos, já passara muita dificuldade na infância e adolescência. O filho optando por outra carreira o desapontou fortemente e quase o pôs para fora de casa. Fora muito rígido com ele e desde o conhecimento da opção dele jamais o tratara da mesma forma. Foi diante desse panorama que o jovem seguiu sua vocação, como ele mesmo dizia a todos.

Lutou muito para conseguir seu primeiro trabalho, conseguiu, tempos depois de seus colegas de faculdade e de ginásio, um pequeno estágio. Nessa própria empresa era meio desacreditado como profissional, não havia feitos cursos extracurriculares e isso o punha em desvantagem em relação aos outros. Seu maior mérito era o brilho dos olhos e uma perseverança fora do comum. De família judia, porém pobre, coisa rara, Gui sempre teve grandes ambições. Levou a sério consigo a missão de ter muito dinheiro.

Mulherengo sabia como conquistar as meninas, seu porte e sua aparência e olhos azuis ajudavam. Aliás, foi assim que conseguiu sua primeira grande chance, paquerou uma mulher bem mais velha de uma grande empresa. Ela teve papel fundamental nessa escalada, pois além de lhe avisar sobre um processo seletivo pouco divulgado deu-lhe uma “forcinha” nas entrevistas. Pouco antes de sua contratação ela disse-lhe: “Faça sua parte que eu te coloco lá dentro”. Depois saíram algumas vezes, mas ela já calejada notara que ele não era homem para algo mais sólido. A diferença de idade, doze anos, não fazia tanto peso, mas Guilherme queria outras coisas.

Anos mais tarde, o rapaz já estava numa posição de relativo destaque no mercado e traçava todas as meninas. Sabia que o dinheiro, o carro e o apartamento recém-comprado faziam bem o papel para que as moças o desejassem, e valia-se disso.

Mas, isso foi até o dia que conheceu Marina. Ela surgiu por acaso em sua vida, fazia muito tempo que tentava na academia que freqüentava conquistar uma loirinha, pequena e muito bem torneada. Sempre que olhava para sua bundinha ficava louco. Mas, eis que em uma dessas festas que algumas academias promovem, ele foi na intenção de finalmente encontrá-la. Achava que tinha mais chances fora daquele ambiente viciado. Contudo, em meio a uma multidão procurou-a, encontrou-a, mas junto também achou a amiga dela, a Marina. Na verdade, um grupo inteiro de mulheres maravilhosas. Entretanto seus olhos pararam nela. Foi com tudo para cima, e alguns momentos de resistência depois ele já a estava beijando. Não fora um ósculo apaixonante, mas o prazer pela conquista falara mais alto. Mari era alta, loura, olhos azuis assim como os seus e chamava muito a atenção pelo sorriso claro e límpido. Simpática e inteligente, também era uma boa conversa para horas. Engataram um relacionamento de três anos.

Mas, todos nós pensamos que a priori serão tudo maravilhas no relacionamento. Infelizmente não, após o primeiro ano seus contatos esfriaram, na verdade nunca nada fora intenso. A relação sexual entre eles era confusa, ela nunca o procurava e às vezes à noite parecia que se conflagravam verdadeiros estupros. Havia o consentimento dela é claro, mas sem nenhuma ponta de desejo. Ele tão caloroso, se via frustrado. Gostava muito de sexo e aquilo o incomodava. Sentia um carinho enorme por ela. Mas sua vida tinha se alterado completamente depois dela. Sua carreira continuava em alto estilo – até melhorara – mas a insatisfação tomava conta. Outra coisa que não gostava naquele relacionamento era a falta de vontade dela em ter filhos no futuro. Contudo, isso achava que poderia ser alterado mais para frente, pois até a família dela o apoiava. No entanto a escassez de sexo o afligia cada vez mais. Tentava fugir das tentações como medo de magoá-la, mas não havia jeito, tinha que dar vazão àquele desejo carnal. Demorou a praticar o primeiro “adultério” – não eram casados, mas viviam juntos. Somente após mais ou menos vinte meses a traiu pela primeira vez, e foi com aquela gerente que a tinha dado uma ajuda em seu primeiro grande emprego – mantinha sempre os bons contatos.

Depois daí passou a buscar outras e a freqüência aumentou até que se decidiu a desfazer do que o estava incomodando tanto. Após várias conversas, não tão diretas, mas que o foco era sempre a exigência da presença dela e escapadas pela tangente por conta de Mari, ele decidiu mudar o rumo de sua vida. Largou-a muito ressentido, mas buscou seu prazer. Não podia viver com uma mulher que não o completasse como homem. E que a seu ver era a mais fugidia das mulheres que encontrara em toda a sua vida. Terminou o “namoro” e foi ter-se com uma paulistana fogosa. Entretanto, não deu certo, essa nova mulher era só sexo, e muito bom – toda vez agradecia aos céus. Que seja dito, as conversas pouco existiam. A outra coisa que o prendia a ela, era a exuberância de seu corpo e rosto era de parar o trânsito. Isso o fazia bem, dava-lhe orgulho. A propósito, Guilherme desde sua grande ascensão profissional fora tomado por uma soberba que o atrapalhou de ver o mundo de uma forma mais isenta. Seu mundinho se restringiu a ternos, carro, dinheiro, festas, restaurantes caros e esbanjar. Foi o seu maior erro, pois apesar de ganhar muito, seu patrimônio pouco fora aumentado em todos os últimos anos.

Dois elevadores

maio 24, 2007

Waiting Room - Philip Hershberger
Estava a esperar um elevador, quando um sujeito foi e apertou o botão de chamada do outro elevador.

Falou meia dúzia de abobrinhas sobre a situação econômica.
Queixava-se da desorganização do país, da falta de educação do brasileiro e eu só assentia com a cabeça.

Aliás, realmente tudo que ele falava fazia o maior sentido. A má distribuição de renda. A educação já nas últimas, motivos de pilhéria. A saúde deixando a desejar – a morte de todos, os políticos etc.

Começou a entrar então em outras searas, discorreu sobre a falta de solidariedade, da educação, dos exemplos que os pais deveriam dar aos filhos. Nesse momento comecei a me incomodar.

Fiquei pensando cá comigo, tem gente que exige tanto dos outros e nada vê em si. Macaco olha teu rabo.

Afinal se estávamos naquela “conversa de monólogo” é porque decerto um egoísta, não tinha pensado nos outros e havia feito o mesmo que o reclamão ao meu lado. Relembro: ele chamou o segundo elevador, mesmo sabendo que eu aguardava um e, portanto, acionara-o. Aliás, informação fundamental, o sujeito em questão era um magnata que morava na cobertura.

Finalmente, depois de algum tempo olhando para o mostrador dos elevadores – ambos agora na cobertura – e já bastante chateado com a minha indolência ou aparente indiferença – realmente eu estava sem paciência mesmo e dizia quando muito monossilábicos “é” ou acudia com a cabeça – o ricaço disparou:

– E o senhor não vai dizer nada? Não acha que estou certo?
Insistiu tanto que,… Sorri e respondi:
– Por que o senhor chama dois elevadores ao mesmo tempo?
Um momento, uma pausa de reflexão se fez. O elevador chegou, saiu uma linda moça de lá, um anjo, era sua filha.

Proliferação

maio 24, 2007

Invasion - Daniel Douke
Estamos diante de uma praga. Ela se alastra sem alarde. Todo mundo vê, mas ninguém se mobiliza para acabar com essa perspectiva. Assunto de alta gravidade, que mudará para sempre nossa cultura, costumes, nossos cotidianos e tarefas do dia-a-dia.

Já se percebe a afetação, pessoas esquálidas, parecendo – e perecendo – vindas de campos de concentração. Seus cheiros se proliferam. Luzes ofuscantes. Estão dominando as ruas.

Incrível como ninguém se mexe. Decerto o dinheiro que rola por detrás desses empreendimentos sustenta o panorama. São várias. Grandes empresas estão envolvidas. O governo não se movimenta. A alimentação das pessoas escasseia.

O comércio se amedronta. Seus espaços são ocupados. Onde antes havia uma padaria, lá estão eles. Lojas são fechadas. Lugares são tomados.

É violento o movimento de conquista.

Em Brasília, certa vez vi que uma rua já tomada. Nada foi feito e ainda hoje continua como dantes. Mesmo a imprensa jogando seus focos para centros como Rio de Janeiro e São Paulo, onde também incidem, não se dá conta do movimento. A invasão é real. Esta aí.

Mas, o que parece uma ação única não é. Tem o consentimento da população que abastece os invasores. Seria então causa dos próprios cidadãos que se rendem a eles.
Razão vista por causa de seus hábitos? A cultura está contaminada. Não há relaxamento dos conspiradores.

Estão por toda parte. Abra sua janela e veja você mesmo. Quantas farmácias ou drogarias consegue avistar? É o tipo de estabelecimento comercial que mais se prolifera. Qualquer dia desses vamos acordar e dar de cara só com farmácias. Será o fim dos tempos!

A atividade só faz crescer retroagir nunca, retroceder jamais. Ou alguém já presenciou um fechamento de uma drogaria? São iguais a filhotes de pombo, ninguém nunca avistou um.

Os domínios poderão ir até além do que se imagina, o poderio poderá ser absoluto.
Já imagino uma entrevista para um emprego:
– Quantos remédios o senhor toma por dia?
– Quatro
– O senhor não acha muito pouco?
– É?
– Não sabe que o recomendado são doze?
– Desculpe, não sabia.
– Solange, mande entrar o próximo.
Um aperto de mãos e um adeus, aquele candidato está eliminado.

Iraque em Imagens

maio 23, 2007

Libertadores?

Fonte: Zona Latina

Fonte: For Someone’s Child

Mais: Carnificina no Iraque

Link: Faz Sentido? – Duplo Sentido

Duplo sentido

maio 23, 2007

Starry Night Double Vision - Ron English
The Starry Night - Vincent van Gogh
Era uma janela, uma pequenina janela. Uma janelinha. Ela tudo via. Os que passavam na rua apressados, os namorados no portão, o jardim florido e os carros rápidos e os preguiçosos.

As outras janelas. Acenava para elas. A árvorelonge lhe trazia os passarinhos, os bem-te-vis, os pintassilgos e as rolinhas. Verde, frondosa e cheia de vida.

Olhava para os outros. Os admirava, criava nomes para cada um que passasse: Maria, Manuel, Ricardo, Clementina, Luiza, Carolina, Joaquim, Marcelo.

Não parava de pensar, refletia no chão e no rosto de muitos o Sol da manhã.

Gostava de ficar decorando as roupas. Percebia cada detalhe. “Olha aquele, usou essa blusa azul e vermelha com estrelinhas na semana passada”. Será que a lavou? Pelo visto não, está toda amarrotada. A loirinha Margareth sempre bem arrumada. Ela é muito vaidosa. Gosto dessa menina, muito sorridente.

Quem são aqueles com capacete? Nunca os vi. E aquilo que apontam para cá? Devem ser de fora. São estranhos. Vestem-se com um negócio dependurado no pescoço. Jorge saiu de casa, foi lá falar com eles. Estão assinando um papel…. Depois de dias uma sombra cresceu.

Nota do blogueiro: Nem tudo que parece é. Nem tudo em dobro é melhor. Nossos olhos estão diante da destruição do mundo.

Jornalistas têm problemas com números?

maio 23, 2007

Numbers - Robert Indiana
Deparado com uma notícia estarrecedora: “A cada hora três espécies de plantas ou animais desaparecem para sempre do planeta. Por dia, 150 espécies são extintas”. O senso crítico disparou o alarme.

Seria muito chato? Voltou atrás. Releu. Não fazia sentido. Quantas horas existem num dia? 50? Conta rápida, 24 vezes três, resultado: 72.

Ontem: “Faltam 42 centímetros para o Jadel bater o recorde mundial (RM) do salto triplo”. Peraí, o triplista saltou 17,90m, o RM é de 18,29m. Lambuja?

“Outra praga nas redações da imprensa especializada é a maldição do milhão por bilhão. É o seguinte: por incrível que pareça, há um impulso suicida entre os profissionais da área de simplesmente acrescentar três zeros, ou então subtrair três zeros, seja qual for a história” (BASILE*, p.114).

* BASILE, Sidnei. Elementos do Jornalismo Econômico. 2002.

Acordei no meio da madrugada

maio 22, 2007

INSOMNIA FATALE - Robert Gligorov
Hoje acordei às duas da manhã. Porque eu não sabia ainda. Só sei que senti um solavanco. Um estremecer dentro de mim. Uma sensação insólita. Não foi nenhum barulho, não houve nenhum terremoto, nem mesmo alguma razão fisiológica. Acordei do nada. Olhei para o teto assustado. Caminhei até a janela. Nada vi. Nada acontecia lá fora. A noite era cheia. Raros carros passavam nas ruas. Pessoas também. Estava fria. Algo ainda me incomodava. Não sabia o quê. Um aperto no coração. Tentei dormir. Não consegui. Liguei a televisão. Desliguei a tevê. O estranhamento não arrefecia. Parei. O mundo parou. De tanto brigar na cama, cansei e finalmente adormeci. Você havia partido naquela noite. Um acidente aconteceu. Seu coração tinha parado e o meu por instantes também parou. Parou de pulsar de amor. Clamou pelos sentimentos. Brigou com o inevitável, não se conformou. Mais que a vida, aquela noite me levou a vontade de viver.