Archive for the ‘Críticas’ Category

Humberto

julho 25, 2007

Man with Pipe (L’Homme a la Pipe) - Vincent van Gogh - 1890
Beto é um homem muito inteligente, perspicaz e romântico. Às vezes ingênuo por acreditar muito nas pessoas. Com o decorrer dos anos se tornou desconfiado ao menor sinal de enganos e mentiras. No entanto, isso é facilmente contornado com uma boa dose de entrega e sinceridade da outra pessoa. Não gosta de joguinhos e prefere pessoas verdadeiras e sensíveis.

Numa noite, numa boate, Beto conheceu Mirna. Mirna era amiga de uma colega de academia. Ele a viu pela primeira vez ladeada por Renata e Elaine. Renata, linda, com um corpo de mexer com qualquer homem foi alvo de seu olhar primo naquela noite, mas ela estava desligada e parecia ter alguém. Elaine também muito bonita já era um pouco mais velha e um charme capaz de chamar a atenção de qualquer um que a olhasse. Mirna tinha um belo sorriso, não tão linda como as demais, mas igualmente interessante.

Concentrou-se em Mirna, a alvejava vendo-a como caçador. Buscou mais informações sobre aquela balzaquiana com Carlota. Estava sozinha, sem namorado, totalmente desimpedida. Beto estava num momento especial, tinha um bom emprego, acabara de um comprar um bom carro e vinha de uma conquista de causar inveja a muito homem. Essa mulher, no entanto era muito garota e ele não se dera muito bem com seus amigos. Sentira-se desconfortável com os papos. Muito imaturos para ele. Já estava em outro nível. E aquela menina tinha só 21 anos e ele 32. Não que a idade fosse problema, mas sua mente funcionava como se tivera quase 40, dado os relacionamentos que tivera antes. Quase sempre se relacionou com mulheres mais velhas que ele.

Voltemos a Mirna, sua boca alegre e a simpatia o encantaram. Em dado momento partiu com tudo. Tinha que ser naquela hora. Puxou-a para dançar e alguns minutos de troca de vistas tentou beijá-la. Ela quase resistiu, meio que embaraçada pela investida, mas ao mesmo tempo atraída por ele, beijou-o. Sem o deixar explorar toda, mais como algo entre um selinho e um beijo ardente.

Ele sempre fora de grandes paixões e investira muito em cada contato com as mulheres, as paparicava e as tratava como rainhas. Algumas vezes se dera mal com esse seu jeito. No entanto, Beto é um homem diferente de qualquer outro. Não é egoísta, é companheiro, gosta de ternuras e ao mesmo tempo se considera um tarado quando o assunto é sexo. Gosta muito da coisa, talvez por causa de sua vida sexual iniciada muito cedo.

Prefere tomar as rédeas da situação, que a mulher se doe ao máximo, pois tem certeza que tem equilíbrio suficiente para não desprezá-la ou parar com os mimos só porque já a conquistou. Para ele sua amada deve ser conquistada todos os dias, mas também é capaz de esfriar só porque a sua companhia o esnoba ou joga com seus sentimentos. Não gosta de sentir ameaças. Tem plena consciência que é um grande conquistador e por isso não se sente inseguro. Jamais traiu qualquer uma de suas namoradas, esse é outro ponto totalmente diferenciado de qualquer homem. Preza o que o outro sente e não quer ninguém magoado e triste principalmente por causa dele.

Mas, resgatando Mirna, ela foi sua parceira ideal por vários anos. Sua primeira noite foi estranha e pouco engraçada ou trágica, ele ainda não sabia ao certo. Passara o dia inteiro, um sábado, jogando futebol e fora se encontrar com ela. Lá pelas nove horas da noite, havia ficado na peleja por mais de sete horas seguidas. Era incansável. Um atleta. Pois, bem, foi sem nenhuma pretensão se encontrar com Mirna em sua casa. Era um dia chuvoso, aliás, chovia muito. Ela morava com a irmã e mãe, mas naquele dia em função do forte aguaceiro, estava sozinha e decidiu então doar-se. Em um dado momento começou a tirar a roupa em meio a uma penumbra. Ele adorou, fitou-a com desejo, mas não à primeira vista não gostou muito do que viu. Não a achou muito atraente, mas gostava muito dela. Ela despertava uma leve atração, o suficiente para aquele garanhão querer cobri-la. Como ainda estava sobre os efeitos alucinógenos proveniente do próprio organismo em função da enorme atividade esportiva, demorou muito a ter uma ereção. Somente lá pelas onze da noite conseguiu finalmente ter uma relação com ela. Não fora grandes coisas, não se conheciam muito e aquele comecinho o deixara muito tenso. Desde lá, criou uma espécie de bloqueio em relação aos primeiros encontros com mulheres. Era vigoroso na cama e tinha energia de sobra, mas a maioria das primeiras investidas passaram a ser duvidosas. Depois de um tempo, pouco tempo, diga-se de passagem, suas relações entravam no eixo e agradava em cheio a qualquer mulher que fosse. Ao longo de sua vida, despertou muitas paixões nas mulheres, arrebatadoras seria o mais certo. Suas mulheres nunca mais o esqueceriam.

Alguns anos depois, diante de uma relação tranqüila que o agradava em cheio, sem sobressaltos. Com poucas brigas entre os dois, afinal ele não era dado às discussões e tão pouco um ou outro davam margem as mesmas, se separaram porque o desejo se esvaiu. Não porque ele ou ela deixassem de gostar um do outro, mas porque ela passou a fugir de suas tentativas durante a noite ou madrugada. Ela como forma de sair da situação criara ou tentava fazer uma programação que os ocupasse todas as noites com encontros com amigos ou festas. Isso o deixou cada vez mais chateado. Tinha tesão por ela e queria mais contato com Mirna. Ela era do tipo caladona na cama, não pedia muito e não o ajudava a buscar tanto o seu prazer – erro maior da maioria das mulheres: esconderem suas fantasias e desejos e até posições preferidas. Mesmo assim ele tinha certeza que a fazia gozar. Talvez o ritmo que ainda permanecia nele não mais conseguia se manter nela, tanto é que ela vivia com sono enquanto ele sempre se sentia inteiro. Poucos diálogos a respeito foram efetuados até que em dado momento ele começou a sentir mais atraído por outras mulheres. Não tinha o que lhe cabia em casa. Como Beto é realmente um macho distante dos outros, fugiu da traição e deu-lhe um ultimato: “precisamos de mais tempo sozinhos!”. Ela disse que iria mudar, mas daqui a uma semana nada mudou. Então, ele saturado por meses de tentativas de alterar o panorama se coube a terminar o relacionamento que era de vários anos. Terminou num dia oito do mês corrente e já em 22 estava arrastando asas por outra, não por insensibilidade, mais por simples atração – que se apagara no romance anterior. Fora também o destino que o colocara agora diante daquela loira estonteante conhecida alguns meses atrás. Fora uma empatia, mas sem nada mais do que isso por causa de sua posição sempre fiel. Beto seria um bom exemplo?

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O Que Será (À flor da Terra)

abril 16, 2007

== incrível, como permanece, como é atual ===
== as partes em itálico então nem se fala ==
== para ouvir e acompanhar na rádio ==

Ouça na rádio

Chico Buarque
Composição: Chico Buarque & Milton Nascimento

1
O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas?
Que andam sussurrando em versos e trovas?
Que andam combinando no bréu das tocas?
Que anda nas cabeças, anda nas bocas?
Que andam acendendo velas nos becos?
Que estão falando alto pelos botecos?
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza.
Será, que será.
O que não certeza, nem nunca terá?
O que não tem conserto, nem nunca terá?
O que não tem tamanho?

2
O que será, que será?
Que vive nas idéias desses amantes?
Que cantam os poetas mais delirantes?
Que juram os profetas embriagados?
Que está na romaria dos mutilados?
Que está na fantasia dos infelizes?
Que está no dia a dia das meretrizes?
No plano dos bandidos, dos desvalidos?
Em todos os sentidos.
Será, que será.
O que não tem decência, nem nunca terá?
O que não tem censura, nem nunca terá?
O que não faz sentido?

3
O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar?
Por que todos os risos vão desafiar?
Por que todos os sinos irão repicar?
Por que todos os hinos irão consagrar?
E todos os meninos vão desembestar?
E todos os destinos irão se encontrar?
E mesmo o Padre Eterno,
Que nunca foi lá,
Olhando aquele inferno
Vai abençoar

O que não tem governo, nem nunca terá?
O que nao tem vergonha, nem nunca terá?
O que não tem juízo?

La la la la la……..

Repete 3

Ó Paí, Ó

abril 11, 2007


Fui meio despretensioso assistir a esse filme, mas acho que até pela atitude “pré-nada” fui surpreendido por uma película leve, divertida e com alguns insights.
O começo é um pouco chatinho e parece até tentar enlevar a figura de Lázaro Ramos. Mas, depois acho que se descarregam desta atitude e os enlaces entre os personagens se dão de maneira sutil e com um tempero de juízo de valor.
É claro que o filme não é, ou não parece, ser nenhuma discussão sociológica, mas ao final – e em algumas cenas – é impossível dissociar as idéias de hipocrisia e da natureza do comportamento humano.
Outra coisa boa é que a cultura baiana é colocada sem máscaras e sem preconceitos.
Vale a pena ver.

O sensacionalismo e o consumismo na TV: espelho do telespectador

fevereiro 6, 2007

De uma maneira geral a TV aberta tem uma programação apelativa e voltada para o sensacionalismo e o consumismo. O imediatismo reina e as brigas por pontos de audiência distorcem o que a televisão deveria oferecer: entretenimento e boa informação. Especialistas, no entanto, apontam que é possível atingir todas as classes sociais indistintamente mantendo um bom nível de programação. Enquanto isso, as TVs por assinatura cobrem um pouco desse espaço deixado pelos programas direcionados somente ao grande público. Uma vez que entram mais em sintonia com um telespectador de perfil mais ativo – que busca informação – seja por causa de um interesse específico ou simplesmente “zapeando” com o controle remoto. Diz-se, às vezes, então, que as notícias devem interessar a alguém que não se interessa por nada.
Em meados da década de 90, o comportamento televisivo no Brasil foi alterado sensivelmente, principalmente no que concerne às classes A, B e C. Com a proliferação dos sistemas de transmissão a cabo, MMDS (os sistemas de distribuição multiponto) e DTH (por satélite) as predileções se diversificaram. Essas alternativas de programações passam destarte a se incluir num mercado até então exclusivo das emissoras convencionais. E, já em 2002, absorveram uma boa parte da população, cerca 3,5 milhões de maneira bastante rápida. Mostrando, desta forma, que apesar de boa parte das grandes massas ainda assistir alguns programas – de qualidade ruim – essa mesma fatia não gera obrigatoriamente um bom retorno publicitário. Ou seja, muitos anunciantes não estão dispostos a associar ou atingir determinados públicos – mesmo que grandes – porque isso pode não ser interessante comercialmente falando.
Apesar disso, em todo esse contexto estão inseridos alguns conceitos de comportamento sociológicos. Muito se aponta que a televisão tem o poder de acelerar a história e até modificá-la. Notório é o caso da luta de Martin Luther King pela igualdade social, no qual, ele mesmo apontou que se não fossem as teletransmissões de notícias, os negros não tinham obtido o direito a voto em 1965 nos Estados Unidos.
Da mesma maneira, o público também é visto como modificador das programações televisivas através de um processo de retroalimentação. O que se vê hoje é que devido a uma série de fatores como: a globalização, a busca por riqueza, o excessivo consumismo etc., a TV se mostra cada vez mais como um espelho da sociedade. Ou seja, se há uma permanente exibição de programas de baixa qualidade, isso se deve exclusivamente aos próprios telespectadores. É uma eleição feita pelo povo para o povo. Logo, de nada adianta criticar que é um absurdo tal programa estar no ar se existe no mínimo um comportamento de complacência com que existe e é profundamente praticado pelas concessionárias.
Liga-se a televisão e está lá o Ratinho, com suas histórias – um desperdício diante da qualidade de comunicador de massa que é. Em outro canal ou horário, vê-se um programa policial, onde um desvio de conduta é o foco e a notícia fica em segundo plano. Noutro, dá-se de cara com uma aberração ou imagens que denigrem o ser humano. Sem esquecer que naquele outro canal, o importante são as fofocas e o que aconteceu com as pseudopersonalidades, as quais, pouco têm a acrescentar de útil. O que pode interessar e ter alguma utilidade para a sociedade se fulaninho foi ou deixou de ir a uma festa ontem, ou com quem ele ficou? Aprenderemos algo para a nossa vida? O culto às falsas celebridades também é um dos cernes da superficialidade das programações das TVs.
Será que é disso que se precisa? Quantas pessoas discutem contigo sobre uma entrevista feita com determinado cientista, estudioso ou pesquisador a respeito das novas tendências sejam na tecnologia, na medicina ou nas artes? E sobre aquele documentário, alguém fala? Ao mesmo tempo, muito se percebe que uma grande maioria diz ver – mas são mentiras – este ou aquele canal ou programa que são tidos como inteligentes, cultos e úteis, mas porquê? Ora, porque muitos sabem o que é ou deveria ser visto, mas não assistem, e por quê?
De onde vem tudo isto? Reflexo de nossa cultura subdesenvolvida? Dificuldade de acesso? Certamente que não.
São os frutos de uma sociedade consumida pela pouca valorização da cultura, dos estudos e principalmente por pouca vontade política de mudança desses valores. Que se façam melhorias no processo educacional, quem sabe teremos, num futuro próximo, mais programas em que possamos nos orgulhar de assistir.

Publicada na Revista Ponto TV do Jornal do Brasil em 04 de fevereiro de 2007 – Domingo.