Posts Tagged ‘Conto’

Sonho de criança

dezembro 12, 2008

Quando criança tinha um sonho, ter uma namorada, momentos felizes com ela, me divertir ser carinhoso e fazê-la me amar. Pensar que eu fora o único a poder torná-la feliz por toda a vida. Ver no sorriso dela uma vitória, um agradecimento a Deus por ter uma menina linda, maravilhosa e alegre perto de mim. Como ingênuo e inteligente eu era. Não sabia que aquilo era uma quase uma utopia e que havia muito mais a fazer. Como inteligente fora ao perceber a essência da felicidade em pequenos gestos e momentos.

Uma criança cheia de ideais, lindos, maravilhosos e que perduraram por toda a vida. Hoje um adulto maduro, às vezes imaturo, mas que sabe viver, às vezes não, mas que sabe o valor de cada ação de bem e preza profundamente por cada uma. Vivamos assim em harmonia como num coração jovem, como um sonho de criança. Para quê tantas desavenças, ganâncias, brigas, lutas, guerras? O que há de mais terno em uma alma de anjo?

 

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O Passarinho

fevereiro 13, 2008

http://rascunhosnanet.blogspot.com/

O passarinho branco estava a me olhar. Parecia querer dizer-me algo. Uma
apreensão tomava conta dele. O carinho passava por aqueles olhos. Saudade e
uma vontade incontida.

Ficamos nos fitando. Um amor. Uma simbologia. Uma transfiguração. Depois de
alguns instantes atônito, percebi quem era aquela ave. De penugens brancas e
jeito saltitante e com uma enorme vontade de viver. Havia principalmente um
querer felicidade. Só podia ser ela, ali em forma de carinho, frágil e
linda. Titubeei e lá foi a passarinha, minutos mais tarde o telefone toca. A
coincidência foi de assustar, a sintonia e a sensibilidade tocam-nos. Amor
profundo, eterno.

Amor no segundo tempo

setembro 21, 2007

Dream No. 2 - Zhang Fazhi

Foi amor à primeira vista.
Mas, com um detalhe importante: no segundo tempo.
Após um primeiro instante da minha vida.
Não no momento ideal, mas no que tinha que ser.
Se a conjectura do espaço-tempo não era a perfeita, a concluída, tudo o mais foi.
E tem sido a favor.
Uma energia espiritual e corporal entre dois seres de causar inveja.
Coincidências enormes.
Gostos idênticos.
Dos detalhes, como a bala que mais gostamos.
E a força e os fatos.
Tudo tem se encaixado.
Ajustado.
O que fora uma situação complicada se transforma em sonho.
Realizações.
Flui de maneira que só Ele poderia arquitetar.
União perfeita. Nos espelhos se mostra a dos corpos.
Nos corações, a da alma.
Todos os dias agradecemos e de volta trazemos a fê-lê-cidade.
Queremos o bem para todos.
Amorosas criaturas.

Comunique-se

julho 22, 2007

Book - Richard Artschwager
Anteontem, 20 de junho foi publicado, o texto: “Olhos Verdes” no site Comunique-se, seção Literário.

Para acessar diretamente o texto* clique aqui

Ou então, veja-o aqui no próprio blog

É o sétimo texto do autor publicado no site.

* necessita de cadastro no site

Um pedacinho…. continue a escrever, pois o faz muito bem!

julho 11, 2007

A Girl asleep - Sir Matthew Arnold Bracy Smith
Era tarde da noite e todos já haviam se recolhido aos seus aposentos. Pelo silêncio e o adiantado da hora era inconfundível saber que toda a casa adormecera.

Lentamente deslizando as pernas sob o pesado edredom de algodão, ainda pensava se deveria ir confirmar aquele sono que se mostrava absoluto entre os moradores, quem sabe alguém ainda acordado para um último boa noite e talvez uma amistosa xícara de chá.

Não, a verdadeira intenção estava longe disso, era a tentativa de expulsar a insônia que a assolava há várias noites advinda de outras causas e nada a afastaria, apenas seria uma pequena e breve pausa para distrair a mente até ressurgirem todas as palpitações, dúvidas, anseios, desejos, calores que aprisionariam novamente à loucura daquele ser enigmático que entrara faz pouco tempo em sua vida.

Como uma bala perdida entra e se instala na vértebra cerebral, impossibilitando sua remoção, pois de certa maneira o encaixe preciso tornou-se parte integrando-se naturalmente, qualquer risco de remoção poderia danificar todo o sistema, e trazer conseqüências inimagináveis.

Mas, a pressão causada mantinha todos os nervos conscientes da sua presença forçada e intransigente. Tentava relembrar os fatos ocorridos desde o início daquele primeiro e absoluto encontro. Tentava reviver novamente o exato e mortal momento em que tudo havia mudado e mudado definitivamente seu ser. Breves momentos de raiva lhe passavam aos pensamentos: Maldita hora! Maldito homem! Maldito encontro! Mas, apenas rápidas chispadas de fogo e ódio, para, a seguir soltar-se e redimir-se inteiramente ao destino encontrado.

Monstruosa perturbação, doentia encontrava-se sua mente que não descansava e a todo instante arremetia-lhe aquele estranho. Estranho tão bem conhecido, tão bem entendido, tão bem desnudado inteiramente por ela. Víscera da sua víscera!

Ela

Oito dias

julho 5, 2007

Plum Island - Jeff Muhs
Por oito dias… Caminhamos pela ilha. Mergulhamos em águas límpidas. Ensinei-te a nadar. Beijei-te no mar. Se dependurou em mim, nos abraçamos. Passeamos por trilhas. Avistamos pássaros. Admiramos o verde da mata. Visitamos cachoeiras. Almoçamos comida caseira. Compramos bugigangas. Tomamos chuva bem agarradinhos. Fizemos amor e dormimos encantados. Brincamos na praia e subimos pedras. Enveredamos por caminhos desconhecidos. Visitamos ruínas. Andamos de barco. Tomamos Sol e cuidamos um do outro. Dei-te comida na boca. Beijei-te. Escorregamos em nossos corpos. Suamos e sorrimos.

Como é bom estar contigo.

Fomos felizes por oito dias na ilha que é dos deuses.

No mar da tranqüilidade

maio 6, 2007

The Sea At Fecamp - Oil on canvas - 1881 - Monet

À beira da praia, um jovem de sessenta e quatro anos admira as ondas, o movimento do mar e olha a areia se desvanecendo com a força do vento.

Uma visão de nostalgia.

Sua casa é simples e bem localizada em um lugar pouco degradado – por ser ainda pouco conhecido e de acesso difícil.

Um olhar perdido no horizonte de boas lembranças. Lembra-se das mulheres que teve, das alegrias que proporcionou aos outros, das risadas, das conversas furtivas. De nada parece ser o homem que deveria ser – um sujeito amargurado pelas peças que a vida lhe pregou. Aos quatro anos de idade foi violentado por um maníaco. Aos nove sofreu grave acidente que o deixou impraticável para vários esportes, em especial ao que mais gostava a ginástica olímpica. Com doze foi induzido pelas más companhias a consumir drogas, preso aos treze em uma casa de recuperação se submeteu a várias provações, dentre elas a fome, o frio – que lhe trouxe junto uma pneumonia que quase o matou. Solto aos dezesseis, decidiu recuperar o tempo perdido, estudou muito e conseguiu completar seu segundo grau à custa de muito esforço.

Era inteligente para os estudos, mas não tinha berço nem base para enfrentar aquele nível de conhecimento sem que fosse a troca de um considerável esforço extra. Falava errado, escrevia pior e foi vítima de galhofas. Não revidava era de boa índole, e sequer percebia algumas maldades em seu entorno. Não conseguiu passar no vestibular em suas primeiras tentativas, pois era muito fraco para competir em tom de igualdade com o pessoal da elite. Na terceira vez em que já estava quase decidido a mudar de rumo em sua tentativa para medicina – já até se inscrevera para administração, curso considerado de mais fácil aprovação – conseguiu finalmente. O curso, no entanto, não foi condescendente com ele, precisa de livros caros e sua atividade empregadora – era atendente em uma lanchonete – não lhe dava condição suficiente para comprar obras tão caras. Virava-se como podia, mas não foi o suficiente, foi reprovado no primeiro ano e viu sua turma ir em frente.

Morava sozinho, pois seu pai o havia abandonado quando fora encarcerado, injustamente ao ser flagrado consumindo maconha. Sabia que tinha sido preso por que era pobre e precisava fazer número às vistas das “otoridades”. Nunca chegou a conhecer sua mãe, pois ela sumiu ao dar-lhe à luz. Mais tarde, soube que já estava morta, mas não sabia ao certo onde havia sido enterrada. Era sua missão, um dia queria descobrir os verdadeiros fatos. Alguns, inclusive o pai – um sujeito severo e grosseiro – haviam lhe dito que fora uma doença terrível a levara e que até por isso a fizera ter razão para o abandono.

Mais tarde ao chegar quase no fim do curso de medicina – faltavam exatos oito meses – foi obrigado a abrir mão do sonho, estava encalacrado em dívidas contraídas ao longo dos anos. Nesse momento já exercia o cargo de gerência de uma distribuidora de roupas o que lhe obrigava às constantes viagens – outro forte motivo que o impedia de cursar a faculdade, pois eram constantes as faltas. Sanou suas dívidas após largar a medicina em quatro anos. Sempre fora amoroso com suas namoradas e companheiras por toda a vida, praticamente se doava aos seus bel-prazeres, via naquilo uma amostra do amor verdadeiro e romântico. Fora também enganado na maior parte das vezes por mulheres ambiciosas que se aproveitavam de sua ingenuidade e bondade. Corno era uma palavra forte, mas que estava muito presente no seu dicionário, se contentava em saber que nessas aventuras amorosas, a culpa poderia ser até sua, mas nunca tinha sido forma deliberada. Que os rompimentos diante das deslealdades embora lhe doessem não tinham sido fruto de uma ação sua. Afinal quem havia cruzado a linha da falta de caráter e do desengano não fora ele.

Vivia de forma simples, e sua ascensão profissional conseguira dar-lhe um conforto maior, já conseguia alugar um pequeno apartamento – morou durante anos em um quarto nos fundos de um sobrado pouco amistoso no centro da cidade. No entanto, um ponto de frustração lhe abatia, com sua mudança de ambiente, novas companhias também foram sucedidas. Nas novas rodas de amigos, era o único a não ter completado os estudos e ter uma profissão.

Decidiu então ser advogado, pois a medicina infelizmente o deixara para trás e não estava disposto a ter frustrações de reiniciar tudo novamente, sua idade também já era um empecilho e o mercado de trabalho na área médica – cirúrgica – era cruel com pessoas mais velhas sem experiência. Formou-se depois de quatro anos exatos – já estava mais adaptado ao ambiente de faculdades e a confiança não mais lhe fugia. Em função do mesmo problema da medicina, não conseguia exercer sua profissão e se encaminhou para o setor público, prestou concursos e logo se tornou juiz. Muito competente e com um senso de justiça e ética muito grande colecionou inimigos ao não aceitar conchavos e propinas. Em uma tarde a frente de muitas pessoas conhecidas sofreu um atentado que quase o matou – por sorte não lhe atingiu mais gravemente – mas tirou-lhe quase que totalmente o movimento de uma das pernas. Incidente que lhe deu – por forças “ocultas” – uma condição de aposentado por invalidez. Mas o que mais tinha deixado com choros e tristezas no coração foi a conclusão a que chegara. Enquanto ativo e possuidor de status e poder muitos amigos os tinham na mais alta consideração. Ao ser colocado – contra sua vontade – fora do serviço público, sumiram. E até alguns presentes na tentativa de assassinato sequer testemunharam a seu favor. O réu era conhecido e nunca foi definitivamente condenado pelo fato. Era um empresário, rico, mas nem tanto, contudo tinha uma série de pessoas no judiciário comprometidas com ele.

Passaram-se os anos e tratou de esquecer os ocorridos, pois não valia a pena. Isso só lhe fazia mal e não tinha efeito prático algum. Decidiu-se a pintar como hobby e vez por outra convidava alguns remanescentes amigos para sua casa a fim de trocar conversas e mostrar suas pequenas grandes obras. Era possível perceber nelas seus tons de amargura, mas não em suas ações. Pessoa alegre, comunicativa e com muitos carinhos com quem quer que seja. Aos amigos nem se fala. Parecia que transportava tudo que tinha acontecido ao longo de mais de sessenta anos para as telas. Ali estava impresso a parte ruim dele, a tristeza, o desvanecimento, a melancolia, o descrédito com parte da sociedade e os rancores.

Mas, ao se tratar com ele se via que não tinha mágoas, só guardava alegrias, por isso permanecia sempre com seu rosto envolto num sorriso. Escondendo o que a vida tinha lhe preparado.

Los Amantes

abril 27, 2007

Los amantes, 1923 - Pablo Picasso
Abraçados. As mãos passeiam tentando descobrir seu corpo. Deslizam pelas costas. Alojam-se na cintura onde tomam impulso e puxam contra si. Indóceis vão e voltam. Param no pescoço para um carinho.

Os beijos fumegam. Os braços fazem força e tracionam com mais violência. Descabelam-se num desvairo de amor e tesão. Os sexos se projetam buscando mais prazeres, se esfregam. As coxas estão embaralhadas. Os apertos são lúbricos. Os desejos, os murmúrios, agora surgem gemidos. Ainda são tímidos, estão na rua. Os gestos são contidos pelo pudor, mas a sensação e o apetite traduzem vontades.

Aos poucos as mãos entrelaçadas se separam. É hora de ir embora. Até o próximo encontro. Até qualquer dia.

Na sopa

abril 10, 2007

Charing Cross Bridge - Andre Derain

Tinha 15 anos e adentrei num 584 lotado, avistei ao longe uma loirinha de olhos claros de tez alvíssima. Estava ouvindo um walkman, na janela seus cabelos finos esvoaçavam. Aproximei-me ao máximo que pude para me colocar em delírio com os anjos. Linda e sorridente, vez por outra se virava suavemente para entender o movimento dentro do coletivo.
Ansioso, tencionava sentar-se ao seu lado. Pensei positivo o máximo que pude e no decorrer da viagem, já mais vazio, consegui finalmente ficar mais próximo daquela musa. Devia ter uns 14 e continuava sorrindo com a música. Meu destino já estava chegando, precisava falar-lhe algo. Mas, o quê?
Seu perfume me chegava pelas madeixas louras, suas coxas roliças apertadas numa calça jeans me davam o contorno de quadris largos e ajudavam a realçar a diferença com a cintura fina coberta numa t-shirt. Com o balançar do ônibus, suas pernas encontravam as minhas. Eu já não me agüentava de volúpia. O sangue fervilhava, borbulhava, meu corpo estava tomado, anestesiado, a lascívia havia tomado conta.
Fala alguma coisa, eu pensava. O soprar mais afoito do vento vindo da janela fazia com que as longas melenas se enroscassem entorno do rosto e dos olhos. Cheguei bem próximo para que ela pudesse escutar e disse:
– O cabelo é bonito, mas incomoda né?
– É – respondeu ela com um imenso sorriso.
Como fui falar tal asneira? Fiquei com um “é” sem continuidade. Eu devia saber que perguntas de sim e não, ou similares, jamais podem ser feitas. E agora o que fazer? O que falar? Minha confiança se esvaiu num “é”. Até minha anatomia se assossegou.
Fez o sinal. E lá foi ela, minha primeira cantada numa desconhecida. Sem sucesso. Saltou, fiquei lhe acompanhando com os olhos perdidos. De repente, ela olhou e fez um aceno carinhoso. Enrubesci. Depois daquele dia peguei a sopa todas as vezes no mesmo horário, queria vê-la novamente. Nunca mais a vi. Ficou uma paixão platônica por uma imagem que jamais enxerguei de novo, mas que a guardei para sempre.

Lá no Cícero

março 29, 2007

Woman on a Terrace - 1907 - Matisse
As aulas são diversões, um acontecimento preliminar ao recreio – a maior das alegrias – o encontro com os colegas, com as garotas.
De soslaio, acanhadas elas vêm e vão. São mais espertas.
Tudo é diversão, preocupação só com provas e mesmo assim nem tanto. Como é maravilhosa essa convivência.
As meninas ainda são garotas. A saia pregueada dá o “charme”, os rostos cheios de sorrisos e olhares acanhados completam a primeira impressão. Crianças, gurias, futuras mulheres.
Ingenuidade, cabelos soltos pululam ao som da Atlântica. Em algumas é possível ver o mar, calmo, zen, mas às vezes bravio. Todos os meninos querem saber o que se passava dentro daquelas cabecinhas que nada falam. Cochicham por entre os corredores, risinhos. Romances só com os mais velhos, conosco, amizades. Como isso nos chateia! Desejamo-las para nós. Mas a malícia ainda está longe, somos só meninos.
Elas olham para os homens. Maldita natureza que nos dá o desejo e a convivência e não nos dá as armas.
Lindas, pensam em romance, em beijos, em carinhos e no cavalheiro que as vêm buscar. Suas curvas ainda se torneiam por um corpo virginal. As brincadeiras são infantis, maldades não encontram eco. A timidez, presente nos guris, não os deixa ir adiante. Quanto tempo perdido!
A aula de educação física é o melhor dos momentos, é a hora que as veremos de shortinhos. Pernas lindas, cheias de penugens que as podemos desejar sem culpa.
Os idos de 1980 se foram, mas as lembranças teimam em nos trazer as satisfações pueris de outrora. Caros colegas como foi maravilhoso tê-los nesses anos de intensa felicidade clandestina.

Publicado no site Comunique-se em: 07.05.2007