Posts Tagged ‘Cotidiano’

O Rádio e a Comunicação

novembro 27, 2008

Havia sete pessoas naquela casa. Era uma família moderna. Certo dia uma visita ligou o rádio e sintonizou numa estação que só tocava música clássica. Ninguém no lugar gostava desse tipo de sonoridade. Aquele lar se tornou mais calmo, sereno e inteligente. Todos tinham vergonha de desligar ou mudar para outra música. Os sete ignoravam totalmente quem teria ligado e colocado aquele som, mas nenhum se pronunciava. Era um veículo de comunicação a toda e uma casa sem o mínimo de troca.

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Formas Redondas

novembro 21, 2008

Estão acabando com os arredondados. Cada vez mais quadrados e arestas. Valores não completos. Olho para um lado, um quadrado, do outro um retângulo. Nos morros predominam um emaranhado de cubos ou formatos sólidos de prismas, paralelepípedos. Por isso tantos gostam de Niemeyer e Di Cavalcanti e suas redondas e curvilíneas linhas. Mundo mais feliz: caminhar e passear pelas sinuosas trilhas.

O mp3 e as pessoas

junho 16, 2007

Rise Up Solitude - Jim Dine
Hoje, duas em cada cinco pessoas vão às ruas portando uma nova indumentária, o aparelinho de mp3. Uma nova tendência seguindo a já solidificada, a do isolamento cada vez maior dos seres humanos.

Estamos cada vez mais centrados em nós mesmos e mais ainda no dinheiro. Nossas razões de viver não estão mais na prosa descontraída. O contato com outros deixou de ser prioridade. Vivemos numa redoma construída por nós mesmos.

Não por acaso, os fones de ouvido antes se chamavam de “egoísta”.

Quanta saudade do homem que rodeava a Lagoa Rodrigo de Freitas caminhando e dando estúpidos bons-dias a quem quer que passasse.

No começo você estranhava, mas depois, até se antecipava no bom-dia e sentia satisfação nisso.

Era a troca. Troca de carinhos mesmo que com um estranho.

Não é por acaso que existe gente que conversa até com pássaros ou com qualquer outro animal. Com os humanos tá difícil.

Em desalinho

maio 18, 2007

Awkward Every Moment - Laura Sharp Wilson – 2003

Sempre fui estabanado. Onde fosse derrubava tudo. Talvez pelo crescimento acelerado ainda quando jovem e a coordenação motora deficiente. O corpo tinha crescido e a noção de espaço não acompanhara.
Já no colégio de primeiro grau, hoje ensino fundamental, me via às voltas com as minhas pernas compridas demais. Tropeçava tanto que ganhei o singelo apelido de Tropeço numa referência a um personagem da família Adams.
Com as meninas então era um desastre, ficava todo atrapalhado. Juntava-se ao já natural desastrado uma pitada de timidez e completava-se o vexame. Era um tal de esbarrar, derrubar meninas, cair sentado e até se machucar. Depois, levantar e ver todos aos risos e apontando para mim como se fora um total retardado. Aliás, acho que a impressão era mesmo essa. Quem não me conhecia tinha por mim a nítida opinião de estar diante de um imbecil. Só quem estudava comigo, sabia das minhas notas e tinha certeza que era só mais um desajeitado.
Na educação física me escondia ao máximo, mas seria absurdo conseguir, pois era o maior da turma. Além disso, só por causa da altura achavam que deveria um excelente jogador de vôlei, basquete ou goleiro de futebol, estava eu em destaque. Mas, a descoordenação era tanta que sequer a bola acertava.
Os anos foram passando e o drama aumentando, namorar era confuso, beijar sem machucar a menina, impossível, pisar no pé, algo comum. Dançar era risível, se assemelhava mais a um pangaré num concurso de adestramento tentando ser garboso.
A partir de uma época comecei a me incomodar muito com aquilo. Perguntava-me: por que eu era assim? Acompanhar uma aula de ginástica na academia era hilariante até para mim. Enquanto todos estavam indo para um lado, lá estava um único atrapalhado no sentido contrário. Alguns mais previdentes e velhos conhecidos já se afastavam sabendo do encontrão inevitável. Os risinhos não mais existiam, já éramos adultos, mas os olhares de reprovação talvez fossem ainda piores.
Certo dia, fui convidado para jantar na casa de uma namorada. Tomei todas as precauções, me distanciei do que eu podia derrubar, dos copos à mesa e até dos vãos entre os pés do móvel. Mas, esqueci da empregada. Eis que ela veio com uma jarra de suco a servir. Perguntaram: “quer suco?”. Prevendo o pior, agradeci e recusei. Mas, a mesma voz insistiu: “você precisa provar o suco da Marlene”. Assenti com a cabeça e… virei-me bruscamente, resultado: derrubei tudo. Acachapei a empregada e o que havia por perto. Uma hecatombe completa. Apavorei-me, levantei rapidamente tentando acudir e com os joelhos fiz pior, derrubei todo o jantar. Até mesmo a ex-futura sogra me olhou com ar de reprovação e porque não dizer de insatisfação. Puxou a filha de lado e lhe cochichou algo, como que dizendo: “você namora esse idiota?”. Resultado: nunca mais vi a namoradinha.
Os traumas só fizeram crescer e até uma coisa até então despercebida me ficou mais clara. Afora acanhotado era também incrivelmente desalinhado. Mesmo de terno ficava mulambo. Por mais que as roupas estivessem bem passadas e ajustadas era maltrapilho. As vestes não caíam bem. Até para alfaiate particular apelei, nada resolvia e ainda fui obrigado a ouvir dele o seguinte: “jamais vi coisa igual, você tem altura, não é gordo nem magro, mas é sempre mal-ajambrado, parece sempre um pelintra”. Nem sabia o que queria dizer aquilo, mas boa coisa não era. Naquele dia chorei como criança, que nem como criança havia chorado.

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